Um pouco sobre a autora.
As cidades da Europa por onde já passei. Atualizado sempre que me aventuro por ai!
Palavras não bastam? Então veja minhas fotos.
Nesse site, cabem mais fotos, e é lá onde estão a maioria delas. Vale a visita!
Eu adoro receber scraps, sabia? Pois é...
Veja os textos mais antigos, organizados por data.
Sites relacionados.
|
Terra à vista - Uma brasileira descobrindo o mundo!
Quando as pessoas me diziam para aproveitar a experiência ¿única¿ que eu estava vivendo, eu concordava plenamente e tentava levar ao pé da letra. Neste ano maravilhoso da minha vida, eu descobri uma coisa muito importante: as pessoas, talvez até mesmo aquelas que viviam dizendo para eu aproveitar, não vivem com a intensidade que deviam. Eu mesma posso garantir que, antes de vir para cá, não tirava proveito dos momentos preciosos do meu dia-a-dia para vivê-los como se fossem os últimos. Ai eu percebi, logo que cheguei, que só teria 1 único ano na minha vida inteirinha morando na Europa como estudante. Um ano que passaria voando e, portanto, não poderia deixar para fazer amanhã o que eu poderia fazer imediatamente. Eu lembro que quando tive esse clique em minha vida, eu estava na estação de trem de Braga, cidade ao norte do Porto, com um cadernino na mão, anotando tópicos com o sentido ¿carpe diem¿ para depois desenvolver um texto sobre o assunto. É que na noite anterior, depois de fazer um passeio trivial pelo Porto, perguntei ao Luis se ele já tinha ido a tal lugar e ele disse que não. Fiquei horrorisada, e, como resposta para meu olhar de reprovação, o portuga disse que tinha a vida inteira para ir lá e que eu só tinha ido porque tinha apenas 1 ano para fazer aquilo. Tá...a vida inteira...mas ele passou metade da vida sem ir e eu me perguntava se ele ia esperar a outra metade para descobrir tão agradávelo pedaço do Porto. Não estou querendo aqui julgá-lo, até porque sou o tipo de pessoa que só foi conhecer mesmo o centro da cidade de Fortaleza depois de entrar na faculdade. Minhas irmãs, até hoje, nem sabem o que diabo é Praça dos Leões. O que eu me questiono é se as pessoas vão esperar um intercâmbio da vida para descobrirem que bom mesmo é viver como eu vivi nesse último ano: acelerada, sentido os extremos das emoções, aprendendo a todo instante, vivendo de verdade. Nada era para amanhã, tudo tinha cheiro de ¿última oportunidade¿, e eu me desdobrava para dar conta dos estudos e da vida social, tudo ao mesmo tempo. Parecia mesmo que o mundo ia acabar amanhã, e, se por uma lado isso me causava uma certa aflição, por outro não havia 1 semana sequer que eu não tinha boas histórias para contar. Quisera eu ter contado todas elas no blog, porém, vocês devem entender que ¿o mundo ia acabar¿ dia 24 de julho de 2006 e eu precisava aproveitar cada segundo....Confesso que ficava dividida entre escrever sobre o que vivi ou viver para escrever depois. Outra coisa que aprendi é que se você deixar para escrever depois, você nunca mais escreve, porque as emoções vão se acumulando e o hoje parece muito mais vivo que o ontem, mesmo que as emoções passadas sejam muito lindas e estejam guardadas na memória para todo o sempre.
Descobri qe é uma delícia fotografar tudo o que se vê, mas minha máquina me convenceu que mais bonito ainda é estar lá. Pôr-do-sol é sempre mais bonito que na foto, bem como a grandiosidade das Igrejas. Eu cansei de me abaixar, sentar no meio da praça e dar aquela brecha....mas não tinha jeito. Então eu desistia e parava para simplesmente viver aquele momento.
Uma coisa sensacional que o descobri na Europa é que arquiteto ainda tem muito valor (aqui). Melhor de tudo era mostrar minha carteirinha de estudante de arquitetura e me sentir a bala que matou o Kennedy, só porque eu podia entrar em muitos monumentos e museus de graça.
Eu poderia ter escrito um texto, o mais ensaiado da história do meu intercâmbio, que ia se chamar ¿os sons de Portugal¿. Eu ia encontrar a hora perfeita e ter todos os tópicos, muitos, anotados no caderninho, para que ele se desenvolvesse num dia perfeito a beira de um lugar perfeito, como toda perfeição pede para ser. Mas tenho a impressão de que esperei demais e fico triste de não tê-lo escrito, mesmo que cheio de imperfeições. É que ele tinha um ar de novidade e deslumbre, mas eu queria ao mesmo tempo ter conhecimento suficiente para não deixar de citar nada. Foi então que descobri que nenhum texto é estático. A vida não é! Estamos sempre captando muitas informações a nossa volta, mesmo que só tenhamos ido ali na farmácia comprar tylenol.
Tem outra coisa que eu descobri também. Que eu sou muito (muito) transparente. Até mais do que eu pensava. Cheguei a conclusão de que tem gente que morreu de saudade como eu mais nunca soltava um pio sobre o assunto. Só que eu sou tão tagarela, mas tão tagarela, que sempre soltava. Eu pensava cá com meus botões: Marília, prometa que não vai falar (nem pensar) em saudade essa semana! Promete? Tá, prometo. A promessa nunca durava mais de 2 dias, porque eu sempre lembrava de alguma coisa ou de alguém em Fortaleza. Eu tenho vergonha de dizer que não consegui apagar minha ¿vida real¿ da minha nova vida, porque afinal eu não nasci de novo, mas apenas mudei de vida da noite para o dia. Simples assim. E quando eu achava que com o tempo eu ia esquecer, não tinha jeito, porque eu sabia que em 1 ano eu ia voltar. E é óbvio que todos os meus amigos tinham isso em mente, afinal tinhamos que nos programar para mil coisas. Mas eu tenho a impressão de que a minha mente às vezes é como um disco arranhado...e o pior é que ele enganchou justamente na música: ¿ê saudade que bate no meu coração...¿. Não foi só das pessoas. Eu tinha saudade até do cheio de sundown em dia de domingo, mesmo que minha brancura não negue: nunca fui muito de ir a praia.
Ah, tem outra coisa que eu descobri: que todo homem emagrece e toda mulher engorda em intercâmbio, com exceção da Sarah, que perdeu 7 kg e do Chen, que ganhou uma pochete. Lembram que nos primeiros textos eu tinha emagrecido 2kg na primeira semana? Foi só para me iludir! Mas também, eu andava de carro em Fortaleza e chegava em casa e o almoço estava, misteriosamente, na mesa! Logo que eu cheguei, comecei a subir e descer ladeiras a pé e quando chegava em casa ia cozinhar, coisa que eu sabia pouco e ruim. Eu também sempre errava a quantidade para menos e acabava ficando com fome mesmo. Depois eu entrei no clima de que o ¿mundo ia acabar¿ e eu tinha que provar até as coisas ruins da culinária portuguesa para me certificar de que eram ruins de verdade. E foi assim que....bem, vamos mudar de assunto. O que importa é que lá para as tantas, nós mulheres inventamos uma dieta coletiva sensacional chamada ¿Maria Albertina¿, que só serviu para confirmar minha velha teoria: não se pode deixar mulher na frente de comida, principalmente de doces. Bem que eu me esforcei e fui correr na Foz todas as manhãs, mesmo quando ainda era frio e a garganta ardia com o vento congelante. É óbvio que bastava surgir um período-tortura de projeto (leia-se: entregas que exigiam virar noite, o que não era muito raro), que eu deixava meus exercícios físicos de lado. Foi quando eu via a foto da Carolina Dieckman em uma Caras de uma amiga brasileira. Ela estava com um biquini e short branco, com o corpo 0% de gordura e dourado, no distante verão brasileiro. Eu era o oposto dela: branquela, cara de bolacha e corpo em forma...de pote, no inverno europeu. Fiz uma promessa com minha querida amiga Cissa para ficarmos tão belas quanto nossa musa inspiradora. Fomos correr cedinho na Foz. Já não estava tão frio e não era o fim do mundo correr as 7, antes da aula. Ai a Cissa teve problemas no joelho e eu tive que continuar na raça, ouvindo sozinha as cantadas dos pescadores coroas do rio Douro. Então você me pergunta se eu emagreci. Bem, era nessa descoberta em que eu queria chegar: ser sociável engorda. Eram sempre tantos compromissos, que sempre envolvia comida obviamente, que eu apenas não engordei MAIS. Mas eu lembro bem de um jantar brasileiro na casa dos meus amigos de São Paulo (Paty, Carol, André e Paulinha) em que prepararam tutu de feijão, lagarto, farofa, arroz e banana frita, e chamaram, além dos brasucas, mais uma porção de italianos e uma francesa, dizendo que aquilo era comida típica brasileira. A francesa deve ter achada uma heresia culinária de tantas misturas esquisitas, os italianos não devem ter gostado do arroz branco...e nós, bem, eu fiquei foi com vergonha de dizer que, mesmo sendo brasileira, nunca nem tinha comido um tutu de feijão. Mas o certo é que eu me entalei de tal maneira que só me lembro de olhar para a Cissa e percebermos, uma na cara da outra, a expressão de depressão pós-prato incofundível. No dia seguinte lá estava eu na Foz com meus colegas pescadores.
Bem, algo de milagroso aconteceu, não sei se por ter visitado tantas igrejas na Itália, voltei desta viagem de Paris-Itália-Alemanha com 2 kg a menos!!! Vamos comemorar....com alface, minha gente!!!
Deu uma doida em algumas brasileiras de fazer, na última semana da faculdade, a ¿Semana Carpe Diem¿. Teve gente que se declarou para um português, outra que soltou piadinhas com o professor, outros que fizeram de tudo que puderam com aquela desculpa básica: ¿nunca mais vou ver esse povo, mesmo!¿. Lembro que fomos assistir a última apresentação do Coral da FAUP (que eu desisti de fazer parte logo no início) e mais uma vez, como eu todas as outras apresentações, morremos de mangar do velho que cantava de forma muito performática. Chamava tanta atenção e era tão engraçado, que a platéia inteira ria constrangida. No fim, na hora do coquetel, fizemos o momento carpe diem e tiramos foto com o tal do moço. Afinal, a gente nunca mais vai vê-lo mesmo!!!
Enfim, bom mesmo, mas de verdade, foi viver cada segundo como se fosse o último com minha família portuguesa, rechada de brasileiros. Foi uma amizade tão forte, tão maravilhosa, tão verdadeira....Eu não posso nem escrever muita coisa sobre nossa despedida, porque choro de tanta saudade. Choro até de tristeza pela forma tão atordoada como nos despedimos depois de virarmos noite para entregar projeto (eu e a Sarah viajariamos no dia seguinte). Não dava nem para sentir que não iamos mais nos ver no dia seguinte. Foi muito triste e até chorei nos braços de alguns. Outros nem tive a oportunidade de me despedir e isso me dói profundamente pois foram como irmãos para mim. Mas, como combinado, nos encontraremos no carnaval de Olinda, em 2007.
Foram tantas descobertas e tantas histórias gostosas para contar não transformadas em texto que eu passaria horas sem cessar relembrando os 10 meses e meio de Europa.
Para resumir, só posso dizer que foram os meses mais surreais e sensacionais da minha vida. E tudo aconteceu porque meus pais desde muito cedo me deram todo o apoio do mundo, acreditaram em mim e me deixaram crescer. Como sou grata por tudo isso!
Chorando ou sorrindo, tenho a propriedade para dizer: eu vivi...e o mundo agora que está começando....
Brasil, eu tô chegando!
Desculpem ter sumido. Estou em Florenca, na Italia, vejam como eu sou chique. Mas como to numa lan house e o tempo e escasso, n vou poder postar oos textos que escrevi ontem no albergue daqui. Mas o que importa e q a viagem esta sendo fantastica!!!!!
Dia 27 saimos do Porto depois de ficarmos de ferias e fomos para Paris. Depois chegamos na Italia e ja visitamos Milao, Veneza e agora Florenca. Amanha estamos indo para Roma e depois, Frankfurt e Berlin, na Alemanha!!!! Quando chegar no Porto dou noticias. Mas aviso logo que to chegando em Fortaleza dia 24 de julho. Beijos a todos!!!!
Sou brasileira e não desisto nunca
Fui lá embaixo comprar alguma coisa da máquina de porcarias. Andando pelo corredor da faculdade, olhei meu reflexo no vidro da janelona que dá para o rio Douro, e ri de mim mesma. No reflexo, vi uma jovem com blusa de malha verde-amarela e uma bandeira do Brasil curiosamente amarrada no pescoço como capa de super-herói . Entendi o porque do segurança ter me olhado esquisito quando passei por ele. Olhei para o relógio. 6 da manhã. A jovem que vos escreve ainda estava vestida com os trajes de torcedora que usou no primeiro jogo do Brasil na copa de 2006. Explico: vim para a faculdade na hora do almoço, passei a tarde me dividindo entre pesquisar o último albergue que faltava reservar (Berlin, aqui vou eu!!) e fazer meu projeto. Sai com a cambada de brasileiros às 6 da tarde (há 12 horas atrás) para a praça da Cordoaria, lanchei na pastelaria brasileira Itaipu (depois de 9 meses de Portugal, comi pastel de queijo com suco de manga....fantástico, mesmo que o moço tenha aquecido o pastel no microondas...) e fui para o bar do Piolho me juntar com dezenas de brasileiros que esperavam o jogo começar, naquela esculhambação habitual de jogo de futebol. O professor de construção, o famoso Madureira, também juntou-se a nós , no meio daquela animação. Achei que fosse ficar rouca, mas nem fiquei. Era tanto do palavrão que o povo falava, mesmo que o juiz não tenha feito nada, só mesmo para ter o gosto de encher a boca e dizer um nome feio bem brasileiro. A torcida canarinha gritava quando o Ronaldinho era filmado e as mulheres chamavam descaradamente o Kaká de gostoso, antes mesmo de ele fazer o único gol da noite. Nunca parei tanto para pensar no fato de que naquele instante, no Brasil, em Portugal, na Alemanha, no mundo todo, a nossa seleção estava sendo assistida por milhões de espectadores.
Ai pronto. Voltei pra faculdade às 11 da noite e recomecei meu trabalho sem fim, em busca de um projeto decente para entregar dia 23. Já se passaram 7 horas e meia e eu ainda estou com a mesma bandeira amarrada no pescoço. Do meu lado esquerdo, estão as remanescentes da noite: Sarah e Cecília (Recife). Vez por outra, uns portugueses que esta noite habitam as salas de aula da faculdade vêm aqui para não ter perigo de eu ter pena de mim mesma e ir embora para casa. Já consigo ver os galhos e folhas da árvore lá fora. Isso porque o sol acabou de aparecer. E eu, como boa brasileira, não desisto nunca.
Eu, que sou cenoura, ovo e café
Há coisas que a gente descobre sobre a gente nesse intercâmbio que às vezes me questiono se ainda vale a pena realizar a velha vontade de fazer o caminho de Santiago de Compostela com o propósito de pensar na vida.
Além de descobrir minhas várias facetas aqui, descobri que somos capazes de sermos mais próximos daqueles que estão distantes que quando estamos fisicamente presentes. Nos dias em que estive mais triste aqui, sentia uma imensa vontade de ligar para os meus pais e ver o que eles tinham para me dizer. Em uma dessas ligações, semana passada, minha mãe sentiu a tristeza da minha voz e contou-me que uma vez, ao assistir o programa Mais você, da Ana Maria Braga, lembrou muito de mim ao ouvir essa história:
Uma filha se queixou a seu pai sobre sua vida e de como as coisas estavam tão difíceis para ela. Ela já não sabia mais o que fazer e queria desistir. Estava cansada de lutar e combater. Parecia que assim que um problema estava resolvido um outro surgia. Seu pai, um chef, levou-a até a cozinha dele. Encheu três panelas com água e colocou cada uma delas em fogo alto. Em uma, ele colocou cenouras, em outra ovos e, na última, pó de café. Deixou que tudo fervesse, sem dizer uma palavra. A filha deu um suspiro e esperou impacientemente, imaginando o que ele estaria fazendo. Cerca de 20 min depois, ele apagou as bocas de gás. Pescou as cenouras e as colocou em uma tigela. Retirou os ovos e os colocou em uma tigela. Então, pegou o café com uma concha e o colocou em uma tigela. Virando-se para ela, perguntou:
- Querida, o que você está vendo?
- Cenouras, ovos e café, ela respondeu.
Ele a trouxe para mais perto e pediu para experimentar as cenouras. Ela obedeceu e notou que as cenouras estavam macias. Ele, então, pediu que pegasse um ovo e o quebrasse. Ela obedeceu e depois de retirar a casca verificou que o ovo endurecera com a fervura. Finalmente, ele lhe pediu que tomasse um gole do café. Ela sorriu ao provar seu aroma delicioso.
- O que isto significa, pai?.
Ele explicou que cada um deles havia enfrentado a mesma adversidade, a água fervendo, mas que cada um reagira de maneira diferente. A cenoura entrara forte, firme e inflexível, mas depois de ter sido submetida à água fervendo, ela amolecera e se tornara frágil. Os ovos eram frágeis, sua casca fina havia protegido o líquido interior, mas depois de terem sido fervidos na água, seu interior se tornara mais rijo. O pó de café, contudo, era incomparável; depois que fora colocado na água fervente, ele havia mudado a água. Ele perguntou à filha:
- Qual deles é você, minha querida? Quando a adversidade bate à sua porta, como você responde? Você é como a cenoura que parece forte, mas com a dor e a adversidade você murcha, torna-se frágil e perde sua força? Ou será você como o ovo, que começa com um coração maleável, mas que depois de alguma perda ou decepção se torna mais duro, apesar de a casca parecer à mesma? Você é como o pó de café, capaz de transformar a adversidade em algo melhor ainda do que ele próprio?
Então minha mãe me perguntou em que eu tinha me transformado nesse intercâmbio. Pensei e cheguei a conclusão de que fui cenoura, ovo e café, tudo ao mesmo tempo. E, ultimamente, tenho conseguido ser as 3 coisas num mesmo dia.
Na faculdade, em muitos momentos, senti-me ovo, pois cheguei frágil, com medo, e logo no começo percebi uma segurança e firmeza diante das adversidades. Porém, percebi que fui endurecendo, principalmente ao descobrir nos colegas uma competitividade, a mesmíssima que me fez um dia parar de dançar (só voltei quando percebi o campo pacificado, como é hoje na minha academia). Essa tal competitividade, que os faz sonegar informação ou te olharem torto só porque você trouxe para a faculdade a sua maquete. Endurecia-me, também, quando ouvia a voz ríspida dos professores tecendo comentários duros a respeito do meu filho, do meu projeto. A crítica sempre esteve presente nos meus 5 anos de arquitetura, mas o tom grosseiro português me fazia endurecer.
Fui café quando viajava pela Europa e aproveitava das alegrias às dificuldades, quase sempre com um sorriso no rosto, com um positivismo fora do comum. Fui café quando me perdia pelas ruas e ainda assim enchergava aquilo como algo maravilhoso e aproveitava para eternizar aquele momento em fotos. Essas fotos que, um dia, me trarão inspiração para a arquitetura e para a vida e me matarão de saudade.
De tudo isso que fui, porém, senti que transformei-me em cenoura sempre que meu coraçãozinho não conseguia calar de tanta saudade ou quando o frio era grande demais e me fazia pensar, por contraste, nos verdes mares de Fortaleza que sempre me trouxeram sua brisa para amenizar o calor do sol intenso nos 365 dias do ano. Da firmeza fez-se a fragilidade, quando lá pelas 3 da manhã, dava um grito de desespero no meio da sala de computadores de tanto cansaço de trabalhar. Eu fui cenoura, confesso, em muitos momentos do meu intercâmbio.
Acima de tudo, eu fui essencialmente a Marília de sempre, o excesso de sentimentalismo, o sorriso e o choro, a tranquilidade e a preocupação. Nunca meio termo, sempre extremos.
Mas acho que, de tudo o que vivi, acabo sempre me transformando em café, com a certeza de que as dificuldades serão sempre transformadas em aprendizado, de que as lembranças ficarão guardadas na memória e no coração e de que eu¿.nunca mais serei a mesma.
Já ouço a melodia da canção de despedida ecoar pelas ruas do Porto. O Porto que agora também é meu.
Bossaudade: CONTINUAÇÃO
a pedidos
O salão, que estava vazio, logo se preencheu por meus amigos e outros Erasmus. E assim, dei início ao meu canto de saudade, de despedida, de emoção, de sonho realizado.
"Vai minha tristeza e diz a ele que sem ele não pode ser...."
Lembrei-me do carnaval, que foi o momento mais dificil de estar longe dele, apesar de que todos os outros momentos nem foram tão dolorosos assim.
"Chega de saudade, a realidade é que sem ele não há paz..."
11 meses e meio de conflito aqui dentro entre a vontade de viver o aqui e a vontade de voltar e viver o lá.
Eu confesso que estava em transe, assim como sempre estou quando subo ao palco, seja para dançar, seja para cantar. Eu via o rosto de cada um, mas ao mesmo tempo a multidão conmpunha uma massa densa, uma mancha confundindo-se na imensidão de informações que era aquele lugar. Nos primeiros segundos, eu tremia de ansiedade e me sentia exatamente como me senti a primeira vez que apresentei um trabalho aqui em Portugal. Todo mundo me olhando, observando meu sotaque, meu sorriso, meu jeito de representar aquilo que eu não sou: o centro das atenções. Era bom e era ruim. Era bom ouvir que mesmo depois de tanto tempo sem cantar em público, minha voz não me deixava na mão e parecia parte da melodia que ecoava naquele salão. Era ruim porque todos estavam com os olhos voltados para mim, no fundo tão tímida, tão insegura, tão...
Eu via o rosto do Claudio (sergipano que mora em Salvador) e parecia que as vezes todo mundo ficava no escuro e ele estava debaixo de um foco de luz. Ele sorria com seu sorriso generoso e enorme e seus olhos brilhavam mais do que o normal. De repente, o foco de luz virtual do Claudio apagava e então me aparecia iluminado o André, tão amigo, tão presente e engraçado, que sempre me fez acreditar que ser o centro das atenções não era tão mau assim. Ele sabia o que aquilo significava para mim e, pelo olhar, transformou o duro "desespero" na mais gostosa rede na varanda. Ficou confortável estar ali.
Eu me sentia feliz de representar naquele momento tantos brasileiros presentes, por ouvir a pronúncia verde-amarela sair da garganta de forma espontânea, ao contrário da cantora, que devia fazer um esforço imenso para não engolir as vogais e cantar "mais aberto".
Enfim, a música acabou, eu desci do palco, o transe desapareceu e eu me senti nua ao passar por entre a multidão até chegar aos meus amigos. Nessas horas, nada melhor que esconder o rosto vermelho por entre os braços dos que abraçam e dizem que foi lindo.
E foi assim.
Bossaudade
Eu recebi um e-mail do ESN, Erasmus Student Network, aquele grupo da reitoria que organiza viagens baratas, festas e tudo mais para os Erasmus. Era um convite, convocando a todos a comparecer no último evento do ano letivo do ESN. Eu fui ao primeiro. Lembro como se fosse ontem: ninguém era íntimo de ninguém, ninguém sabia andar pelo Porto direito. Ninguém sabia o que estava por vir. Foi uma das festas mais animadas que fui aqui. Entre projetos e aulas de desenho no dia seguinte, acabei não indo para algumas festas que o ESN organizou ao longo do ano, mas a última eu não poderia perder. Haveria um concerto de Bossa Nova de uma banda Portuguesa. Poxa, Bossa nova! Bossa Nova me fazia lembrar tanto das minhas tão queridas aulas de história da arquitetura moderna brasileira que tive em Fortaleza 1 semestre antes de vir para cá. Eu lembro que quando comecei a estudar sobre Niemeyer, Rino Levi, Vilanova Artigas, dentre outros, fiquei tão encantada e apaixonada. Era o momento de glória da arquitetura brasileira no mundo e, às vezes, lendo aqueles textos, eu me transportava de tal forma para a época que passei a ouvir mais bossa nova, a música genuinamente brasileira, que me dava tanto orgulho quanto o modernismo no Brasil. Meu caso com a música é muito forte: as situações da vida me trazem a cabeça novas músicas e a música me traz vida. Então, foram 6 meses ouvindo o que o Brasil tinha produzido de melhor quando eu ainda nem pensava em nascer. E, por coincidência, foram os 6 últimos meses de despedida do meu país....período em que, durante o trajeto diário da faculdade para casa, já sentia saudades antecipadas de tudo que estava deixando para trás.
Mas voltando ao evento do ESN, marcamos todos para chegarmos na hora afim de não perdermos o show. Passamos a tarde toda (desde o almoço), eu e o André, cantando diversos sucessos de Tom Jobim, Gal, Vinicius...Estávamos animadíssimos. Disse para o André que se desse, gostaria de dar uma palhinha com a banda.
Chegando lá, não demorou para a banda começar a tocar. A mulher cantava com um "brasileiro" tão legítimo que me deixava em dúvidas se era realmente portuguesa. Tinha uma voz doce, tão doce quanto a flauta e o violoncelo que a acompanhava. Um casal de brasileiros mais ousado foi para o centro do salão e começaram a dançar, meio que fora de ritmo, mas enfim, estavam lá corajosos. Ai eu resolvi ser corajosa também. Disse para o André que um dos meus sonhos era cantar Chega de Saudade com uma banda tão completa como aquela. Bem, o corajoso foi ele, pois em instantes lá estava ele batendo papo com a cantora, inventando uma história de que eu era cantora de barzinho em Fortaleza (bem, cantar em barzinho, eu já cantei, mas de metida mesmo...ahahaha). Depois de um tempo ouço o cara do violão chamando uma tal de Marília para cantar com eles. Meus Deus! Fiquei tão emocionada!
O salão, que estava vazio, logo se preencheu por meus amigos e outros Erasmus. E assim, dei início ao meu canto de saudade, de despedida, de emoção, de sonho realizado.
Chega de saudade.
Rock in Rio Lisboa 2006 - EU FUI!!!
Pegamos o trem, eu, Sarah e Carol (amiga de Campinas que estuda com a gente aqui) e fomos bater lá na casa da Cynthia (da UFC, que tá morando em Lisboa). Saimos com o mochilão nas costas, mochila na frente (quase não dava pra ver a gente no meio desse sanduiche), chegamos lá, nos arrumamos e já fomos para o show. Era o primeiro dia de Rock in Rio, a segunda edição aqui em Lisboa, e a cidade estava fervilhando, principalmente nas estações de metro.
E foi fantástico. Era dia de Ivete Sangalo, Jamiroquai e Shakira se apresentarem. E quando ela, a Ivete, entrou naquele palco, cheio de dançarinos morenos, ela toda linda, com maiô vermelho e saia estampada, quase uma Carmen Miranda, eu comecei a chorar de tanta emoção. Não exatamente por ela, apesar de que a admiro muito, mas por estar me sentindo no Brasil, cheia de brasileiros ao meu redor (os conhecidos e as centenas de desconhecidos que estavam com bandeiras e camisetas do Brasil). Eu nunca pulei tanto em um show e estou sentindo as sequelas até agora (o show foi sexta e já é segunda-feira!). Fiquei perto do palco, ainda era claro e deu pra vê-la se requebrando bem de perto. Tinha um grupo de portugueses na nossa frente que logo perceberam que mais valia pular junto conosco que sairem de lá roxos. Colocávamos os braços nos ombros uns dos outros e pulavamos de um lado para o outro numa fila indiana luso-brasileira. Eles estavam impressionados como nenhuma letra de música nos escapava da memória. Um momento inesquecível foi quando ela cantou aquela antiga lambada "Chorando se foi quem um dia só me fez chorar...." e o povo insano, gritava na platéia. Outro momento lindo foi quando, já escurecendo, ela cantou "se eu não te amasse tanto assim..." e várias luzes de isqueiros se acenderam (considerando que nunca vi tanto fumante como em Portugal, imagine o mar de chamas iluminando aquela multidão).
E Sharika? Lembrei demais da Mariana, minha irmã que daria de tudo para estar ali comigo. A colombiana é linda, magra, baixinha e requebra feito uma doida. Cantou vários sucessos, dos mais antigos aos mais recentes e dançou muita dança no ventre para a alegria da galera. Ela mesma se emocionou cantando 2 músicas e acabou emocionando aquela multidão também. Foi muito bonito!
No dia seguinte, mesmo destruidas, ainda fomos na feira de Construção (Tektônica) que tava tendo no Parque das Nações para pegar vários catálogos de materiais para utilizarmos nesta última fase de projeto. Como eu estava precisando desses catálogos!!!
E no domingo fomos para Fátima pedir perdão pelos pecados (eheheheh) e também pedir forças para finalizarmos o projeto sem perder a sanidade. Que Nossa Senhora faça esse milagre! O santuário tem uma esplanada 2 vezes maior que a praça do Vaticano e a quantidade de fieis pagando promessa me impressionou. Tinha tanta gente andando de joelhos (com joelheiras, é claro) de uma ponta a outra da praça...era impressionante.
Aliás, impressionante mesmo era o calor. TRINTA E CINCO GRAUS. Estava insuportável....está insuportável. De repente, o tempo passou do calor com ventinho frio para o calor infernal sem vento e abafado, sem nos dar uns dias de alegria com o clima gostoso de Fortaleza (sol, calor, mas a brisa do mar....). Como será na Itália, eu me pergunto...
Atualizações no "Por onde andei"
Atendendo a pedidos, fiz a atualização do link Por onde Andei, que mostra o mapa da Europa com as cidades que eu já fui. Poderia ser mais detalhado, afinal há algumas cidades que visitei que não estão citadas no mapa. Tentei, então, acrescentar alguns pontos vermelhos extras que ilustrem minha passagem por aqueles pedaços de terra. Deus queira que quando eu volte para Fortaleza, dia 24 de julho (!), eu possa fazer uma nova atualização acrescentando pontinhos vermelhos na Itália e Alemanha.
Disseram que eu voltei holandesada...
Escrito "in loco"
Lembro bem da cena: eu, deitada na cama dos meus pais, com o corpo na diagonal, ocupando-a por completo, lendo uma revista Viagem e Turismo. Era uma reportagem sobre o costume de se andar de bicicleta na Holanda, mais especificamente em Amsterdam. Eu não sabia se o que mais me chamava atenção era este modo de vida saudável ou o cenário encantador formado por casa de tijolinho e janelas brancas...
Anos, muitos anos depois, estou eu aqui, deitada num colchão posto no chão da sala da casa da Liana, prima da Sarah, num edifício centenário de 3 pavimentos, de janelinhas brancas e tijolinhos na fachada, num bairro típico de Amsterdam.
Ouço um reggae super tranquilo vindo das caixas de som do computador do Niel, "namorido" da Liana, um holandês de quase 2m, loiro, rosado, de olhos azuis. Como ela veio parar aqui, não vem ao caso, mas como eu e a Sarah viemos parar nesse paraíso das bicicletas, isso sim muito interessa.
Durante a semana do dia 6 a 14 de Maio, haveria uma pausa nas aulas em toda a Universidade do Porto, devido à celebração da tradicional Queima das Fitas, festa universitária em todo Portugal em que os estudantes comemoram...bem...a vida académica. Os calouros se libertam, finalmente, das famosas (e aterrorizantes) praxes, aqueles trotes que aprontam com os coitados durante todo o período letivo. Os urubus (aqueles alunos metidos a besta vestidos todos de preto) exibem seus trajes típicos sem deixar de lado o copo de cerveja (nunca vi tanto português bêbado reunido) e os "finalistas", aqueles que estão quase se formando, se despedem da vida académica para entrarem no mercado de trabalho. Há um cortejo pelas ruas do Porto com direito a carros alegóricos, serenatas com músicas de "enterro" no meio da praça e uma festa fechada (um festival de música tipo os do Brasil) com barraquinhas de todas as faculdades, muita bebida, música eletrônica chata e bandas portuguesas para todos os gostos. Fui só no primeiro dia, o que me fez ter a certeza de ter feito a escolha certa de trocar o resto da semana de festas pela Holanda.
Tirando o pepino que enfrentamos ao chegar no aeroporto do Porto e descobrimos que houve um erro no sistema da agência de viagem onde compramos a passagem e, por isso, nem nosso bilhetes foram emitidos, nem tinham cobrado nada nos nosso cartões de crédio (o que nos fez "perder o avião" e refazer a compra, só podendo viajar no dia seguinte). Voltamos frustradas pra casa e, no dia seguinte, lá estávamos nós de novo pegando o ônibus para ir ao aeroporto.
Chegamos em Amsterdam no começo da tarde da quarta feira (10 de Maio) e logo descobrimos que os meios de transporte na Holanda (trem, metro, bondinho) são muito caros, o que nos deixou conformadas de ter que andar muito a pé pela cidade para fazer economia. Ainda bem que eu e minha companheira de viagem achamos que essa é a melhor forma de conhecer uma cidade, e aproveitamos essa liberdade toda para entrar em todo supermercado, feirinha, parque, etc, que aparecesse na nossa frente.
Masi eu queria mesmo era andar de bicicleta como aqueles holandeses de todas as idades. Tinha adolescente, mulheres de vestido esvoaçante, velhinhos, crianças na garupa. Todo mundo rodando pela cidade pelas ciclovias demarcadas em todas as ruas, com direito a sinal de trânsito e tudo mais. Quase não havia carro, mas ainda assim era uma complicação de atravessar a rua, pois a falta de costumo de conviver com esse meio de transporte em abundância me fez "quase morrer atropelada" diversas vezes. Se não morro atropelada, fico com dor no pescoço de contorcê-lo a cada via (de carros e bicicletas) atravessada.
Amsterdam é linda demais. Há canais por todos os lados e pontes antigas de todos os tamanhos. As águas dos canais refletem a arquitetura centenária predominantemente marrom e branca do centro da cidade. Interessante mesmo são os ganchos no topo dos pequenos edifícios cuja função é carregar os móveis das casas até o interior delas, passando pelas janelas, já que as escadas que dão acesso às habitações são estreitas e muito (eu disso MUITO) inclinadas. Muitas construções antigas são tortas, dando a impressão de que a qualquer momento ou vão cair em cima dos transeuntes que passam pela calçada ou despencar uma por cima das outras. As mais modernas brincam com os materiais de alta tecnologia recém lançados no mercado da construção civil, fazendo das janelas elementos definidores da linguagem arquitetônica. Nada é convencional, tudo reflete a imensa criatividade holandesa! Sinto-me andando dentro de uma "revista de arquitetura" devido a sensação de já ter visto aqueles prédios nas minhas idas a biblioteca da faculdade.
Os holandeses são mesmo rosados, loiros, de olho claro e muito altos. Falam uma língua estranha, mas se você se aproximar deles falando em inglês, eles não demoram a responder. Comem batata frita com molho. Não precisa ser nada sofisticado: basta maionese e/ou ketchup e lá vão eles felizes passeando com o saquinho em forma de cone pelo meio da rua. E por falar nas ruas, foi andando por elas, sempre com o mapinha na mão, que vi pela primeira vez o tão famoso "Bairro da Luz Vermelha", em que as prostitutas ficavam nas vitrines com roupas mínimas, dançando e tentando seduzir as pessoas que passavam, olhando um pouco constrangidos com tamanha naturalidade com que aquelas profissionais executavam seus serviços diários. Na rua principal, até que as mulheres eram bonitas, bem feitas, bem cuidadas e tudo mais. Mas bastou eu mudar de rua que me deparei com umas gordonas cheias de celulite, peitão¿tudo isso contrastando com roupas mínimas. Tem gosto pra tudo!
Também foi andando por ai que vi uma feirinha de variedades onde vi vendendo curiosos pirulitos verdes de maconha. Foi quando eu decidi que jamais compraria bala na Holanda com medo do que minha inocência podia me aprontar.
Andei de bondinho, de barco no canal, a pé, de trem. Só não andei de bicicleta (nem me fale...). Fui a casa onde morou o pintor Rembrandt e ao museu Anne Frank (na casa onde ela ficou escondida durante a perseguição aos judeus), ao Museu Van Gogh, às velhas igrejas, etc. E nos fins de semana, tivemos o imenso prazer de passear com Liana e Niel por cidades vizinhas, tipicamente holandesas para conhecer os moinhos, os queijos deliciosos, a fabricação dos tamancos de madeira, os campos de tulipa, as vacas malhadas e as ovelhas, os diques...Foi surpreendente!
Fiz facilmente amizade com a Liana, que logo no primeiro dia já se tornou querida devido a afinidade nos longos papos sobre as histórias das nossas vidas. E o que dizer do Niel, também tão simpático e atencioso, sempre tentando entender nosso português, se esforçando para falar dos mais diversos assuntos na nossa lingua e nos levando para bairros residenciais modernos para nos mostrar a arquitetura contemporânea holandesa...E quando não estava com a gente, nos dava dicas de onde irmos. Adoramos a moderníssima Rotterdam!
Enfim, foi uma viagem incrível, cheia de sabores, cheiros, amizades, risadas, surpresas, encantamento, aprendizado...E eu que nunca imaginei um dia chegar a esse pedaço do planeta! Estou feliz demais.
Da série: a fantástica eficiência da Polícia Portuguesa
Abri a caixa de correio. Meus pais perguntaram que carta era aquela. Dizia POLICIA no espaço do remetente. Intimavam-nos, eu e Sarah, a comparecermos a delegacia na primeira sexta feira de maio para colaborarmos com um tal de "acto processual". O negócio era tão sério que, dizia a carta, se faltássemos o encontro com o delegado Leite sem dar qualquer justificativa, teriamos que pagar uma multa que ia dos 150 a 500 euros. Então tá. Quando voltássemos de viagem, lá estaríamos.
Faltamos aula de desenho e chegamos, quase em ponto (brasileiro não chega na hora!). Primeiro chamou Sarah. Passou horas lá dentro, e eu já estava impaciente. Mas que diabo era "acto processual?". Ficava só imaginando se Sarah estaria de cara com uns 5 suspeitos para identificar, afinal, quem tinha roubado nosso celular naquele longiquo mês de dezembro. Vai que esta tão esperada cena de filme estava inclusa nesse acto processual!?! Peguei meu projeto dentro da sacola e comecei a riscar, pra ver se passava o tempo. Alternava a atenção entre as plantas baixas e a televisão, que mostrava a reportagem de uma estudante portuguesa que tinha sido sequestrada há 2 dias no Rio de Janeiro. Eles falavam do terrível acontecimento, mostrando, junto com a narração, todas as belezas da Cidade Maravilhosa....que sensacional!
Finalmente Sarah sai da sala. Estava contra o sol que entrava pela porta principal, então eu só conseguia ver sua silhueta se aproximando de mim, exibindo algo que eu não conseguia identificar.
(pausa para contar a versão da Sarah, que é muito mais emocionante)
Cena 1: Sarah na sala com o delegado Leite.
Enquanto Sarah tentava identificar entre tantas fotos o maldito do ladrão, delegado Leite pergunta, com um ar de sei lá o que:
- Vocês ainda têm a esperança de reaver o vosso telemóvel?
- Não, claro que não, tanto que já compramos há algum tempo um novo.
- Pois fez mal! Fez muito mal! - e então, com um olhar maroto, exibe em sua mão o telemóvel, nosso telemóvel, visto pela última vez dia 12 de dezembro de 2005.
(pausa para você se recuperar deste momento de descrença total. Acredite, o celular estava realmente de volta a suas donas originais).
Quando avistei a silhueta da Sarah se aproximando de mim, esforcei-me para enxergar o que tanto a fazia sorrir daquele jeito. Disse-me que o bandido não foi capturado, mas o telemóvel....Inacreditável!
Entrei na sala do delegado Leite, que iniciou o mesmíssimo procedimento que fez com Sarah: perguntou-me como tinha sido o acontecimento, pediu-me para olhar uma pasta enorme, cheia de fotos de criminosos. Enquanto isso, ia escrevendo no computador tudo aquilo que eu ia contando. Quem me conhece sabe que sou especialista em contar histórias com detalhes, inúmeras vezes, se for necessário, para quem quiser ouvir. Então, enquanto Sarah esqueceu de contar alguns detalhes, nada escapou-me da memória, e fui narrando o fato como se estivesse contando uma fofoca quentíssima a uma amiga. Ele ainda perguntou-me se o acontecimento tinha alterado nossas vidas, e eu assenti com a cabeça, acrescentando (com muito drama...hehehhe) que desde então, nos trememos da cabeça aos pés toda vida que qualquer pessoa vem nos pedir 10 centavos no meio da rua. Eu ainda sou mais controlada, mas a Sarah faz uma cara de desespero tão grande, que parece que logo em seguida vai ter um ataque do coração e cair dura. Disse quase isso, afinal, estava muito compenetrada nas imagens dos bandidos para me preocupar com tamanho espetáculo teatral. Em cima de algumas fichas, estava escrito em letras garrafais a palavra CLICHÊ, o que, na minha santa inocência (e imaginação de Fantástico Mundo de Bob) me fez pensar que aqueles caras se metiam em encrenca de forma tão constante que os policiais já estavam cansados de vê-los...eram clichês (ehehehhe). Mas depois descobri que clichê, na verdade, era o nome da ficha dos bandidos. Quanta imaginação!
Ai o delegado Leite interrompeu meus devaneios e mostrou, já impresso, a "narrativa policial" que acabara de escrever. Pedi apenas para ele alterar algumas partes, pois não estava gostando do sentido que algumas frases estavam a dar. Ora, eu queria participar da composição do texto para ficar uma narrativa fiel e impecável. Imprimiu de novo e perguntou-me, ansioso:
- E então, identificastes o sujeito?
- Não, não é nenhum desses! Nem perigo de ser!
Ele me fez uma cara de quem estava confuso, como se a Sarah tivesse identificado e eu, não. Mas ai depois descobri que a Sarah também não tinha encontrado nas fotos ninguém com aquele olhar de mal que não sai da minha cabeça.
O telemóvel foi encontrado depois de a polícia entrar em contato com nossa empresa de telemóveis e descobrir o novo usuário do aparelho (através de um código de identificação). Não era o ladrão descrito por nós, mas por ter comprado o telemóvel roubado, foi duramente interrogado pelo delegado.
E assim, mais um episódio da busca incessante pelo ladrão de telemóveis acaba, sendo que desta vez com um final quase feliz.
O reencontro
Escrito dia 3 de abril
Não páro de olhar para o interior de todos os táxis que passam em frente ao hotel da Praça da Batalha. Cada um a dar a curva me enche de esperanças. Será que é nesse que vêm meus queridos pais? Fico imaginando o papai com aquele olhar de encantamento diante da magia da Europa. Fico a pensar na minha mãe com o coração a mil por em instantes poder ver a filha que há 7 meses se mudou para esta terra do outro lado do Atlântico.
O tempo parece que correu. Já é abril e o que sinto é que só passaram 3 meses ou menos. Não consigo enxergar esse intercâmbio com a profundidade de tempo devida. É como se entrasse no mar e as ondas não ultrapassassem o tornozelo, mesmo caminhando em direção à linha do horizonte. Tudo parece ter acontecido há uma semana...e, no entanto, já faz uma eternidade que esta visita deles vem sendo organizada.
Hoje faz calor, como ontem quando fui correr na Foz. O calçadão da beira do Douro mais parecia a Beira-mar em Fortaleza, às 6 da tarde do domingo. Todos os velhinhos resolveram tirar o mofo e foram caminhar. As crianças e os próprios pais se lambuzavam com a "comida típica da estação": gelado (picolé/sorvete). E andavam de bicicleta naquela animação! Ah, primavera, quanto te esperei...
Aqui na frente deste hotel, observo turistas praticamente desnudos, torrando, sentados a beira de uma fonte desligada. Os pombos, quando menos se espera, desgrudam do chão todos de uma vez e dançam no céu de modo festivo, ágil, sincronizado, com o cuidado para não esbarrarem na fachada dos prédios antigos.
Ansiosa, vendo aquele táxi específico parar em frente ao hotel, parece que o Brasil está chegando até mim. O tempo às vezes corre, às vezes se arrasta, às vezes nem quer passar...Que o mundo pare, nesse segundo, quando eles me abraçarem...depois de 7 meses.
Voltei, Portugal, mas não foi a saudade que me trouxe pelo braço....
Sei que estive muito ausente do blog esse mês de março, mas vocês já sabem porque foi, não preciso nem dizer. Depois do desespero com projeto, meus pais chegaram para me ver. Foi simplesmente maravilhoso. Minha mãe chorou, meu pai deu aquele sorrisão, e depois desse dia, tudo foi só alegria. Passeamos por Portugal (Porto, Braga e Guimarães) e depois fomos a França (Paris, Lyon, Grenoble e Annecy) e Bélgica (Bruxelas e Brugges). A viagem superou todas as expectativas e, por isso, merece um post mais detalhado que este que escrevo apressadamente para voltar logo para casa. Agora meus pais já foram embora e me deixaram na imensa tristeza de voltar a vida real. Aliás, a vida irreal, sem pais. Mas é isso ai, bola pra frente. Restam 3 meses, 2 de estudo e 1 de viagem! Vai ser bom conhecer a Itália, a Holanda e, quem sabe, a Alemanha. Enquanto esse dia não chega, a gente ri, a gente chora, a gente faz projeto.
Espero que tenham tido uma boa páscoa!
Da série EU TARDO MAS NÃO FALHO:
A vida fabulosa dos estudantes brasileiros de arquitetura da FAUP
Foram 4 semanas (ou mais, perdi as contas...) de projeto, desde o carnaval. O trabalho era imenso, o tempo mínimo. Tudo o que nos restava era chorar. Ou então, fazer palhaçada de madrugada. E foi exatamente o que fizemos.
A professora de construção saiu na revista. Tava toda chique, linda, loira, posando para a foto na frente da sua "casa ecológica", projetada por ela mesma. Era uma reportagem sobre arquitetura ecológica, aquela ecologicamente correta, que usa materiais que prejudiquem o mínimo possível a relação do construido com a natureza. Tipo isso. Ai um belo dia veio o gaiato do André, colou um manto de papel em cima da foto da professora, colou também umas flores de plástico na base e fez dela uma santa. A professora Ana, agora, passava a se chamar Sant´ana. Em poucas horas, todos os brasileiros que estavam na sala de computador tornaram-se devotos fervorosos da loira, pois acreditar nela era nossa única saída para nos livrarmos dos momentos de desespero projetual. André foi o primeiro a se ajoelhar diante do altar que montamos para pedir que a santa iluminasse sua cabeça. Estava apavorado porque a entrega era para quinta feira e as idéias não surgiam. As vezes, mudava seu nick do msn para Sant´ana, se passando pela própria santa (veja quanta heresia) para abençoar os fiéis.
A cada desenho feito ou problema solucionado, alguém ia lá deixar um recado para Sant´ana, como se fosse um ex-voto. Renata, por exemplo, deixou fixado junto a imagem "agradeço à Sant´ana pela graça alcançada" e foi embora lá pras tantas da madrugada para descansar um pouco e voltar ao batente no dia seguinte.
Sant´ana iluminou-me, pouco, mas iluminou. E foi por isso, e por outros milagres realizados, que resolvemos criar uma bela comunidade no orkut para a moça...digo....Santa: Eu sou devoto de Sant´ana.
ps: levamos a prof. para a sala de computadores dias depois para ela ver o altar e a oração que a Sarah criou especialmente pra ela. Essa oração foi declamada pelos brasileiros lá pelas 4 da manhã, num momento de extremo cansaço, em um coro só. Ela morreu de vergonha.
A gente é lascado, mas se diverte.
Eu tardo mas não falho: o show dos Los Hermanos...
Mal abriu o teatro, lá fui eu na pressa em direção ao lugar mais perfeito da platéia para assistir ao show. Sarah foi se sentar e...puf! Caiu! O teatro era tão velho que a coitada experimentou 2 cadeiras e todas elas desabaram no chão. Ai na terceira deu certo. (Essas pérolas só acontecem com ela...)
Será que seria bom mesmo um show em um teatro? E quando eu quisesse dançar feito uma doida, que nem quando eu tô no show do Biquini Cavadão e espanto todas as pessoas do meu lado, gritando junto com a Mariana (irmã) e a Paola (amiga)?! Era minha única dúvida.
Ai eles entraram. Meu Deus! Lembro bem dos meus pêlos do braço subindo de imediato de tanta emoção. Não era bem só pelo fato de vê-los¿Era muito mais porque naquele instante me senti voltando para o Brasil, pisando de novo na minha terra, em tudo que é meu, em tudo aquilo que realmente faz sentido pra mim. Foi emocionante, foi de chorar. Uma pequena parcela da platéia era brasileira. A outra era portuguesa, provavelmente por causa do show dos Toranja. Mas aquela mulher portuguesa com uma blusa escrito EU AMO LOS HERMANOS provava que o sucesso dos caras barbados já tinha atingido o outro lado do Atlântico. Ninguém conseguia ficar parado. Então comecei a ver os mais tímidos batendo os pés no chão acompanhando a batida da música, outros balançando a cabeça de um lado para o outro...até que os mais corajosos levantaram-se das cadeiras, foram lá pra frente do palco e começaram a pular, empolgadíssimos. De repente, o povo sentou não sei porque, e eu só me toquei que foi por causa do segurança gordão chato quando tocou minha música preferida (Sentimental) e sai correndo lá pra frente, até o bocó me mandar de voltar pro meu assento. Filmei, cantei e no fim do show fui lá na porta do camarim, pastorar se os caras apareciam para eu dar início a minha sessão tiete. O mico é grande, mas valeu a pena. Tirei foto com o Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante. Emoção total!
Ai depois veio Os Toranja, que me surpreenderam. Bem bonzinho. E, pra fechar com chave de ouro, Los Hermanos dividem o palco com a banda portuguesa, cantando um sucesso do novo disco dos brasileiros. Chama-se Pois é, mas eu não conhecia a música, e como foi o vocalista português que iniciou cantando com seu sotaque português, fiquei na dúvida de quem era a autoria. Mas ai pensei: é brasileira! Se fosse portuguesa, certamente, a música se chamaria POIS.
Los Hermanos
Foi a Cynthia (amiga da UFC) que me ensinou, enquanto fazíamos nosso projeto do Oceanário (último projeto que fizemos antes de virmos pra Portugal), a gostar dos Los Hermanos. Projetávamos e ouviamos sem parar todas as músicas do cd Ventura, sem contar das vezes que iamos para a faculdade juntas e cantávamos pelo caminho, junto com a Luana (quanta saudade de tudo isso!).
Ai Los Hermanos se tornou a trilha sonora oficial dos meus projetos, e até aqui as músicas deles me acompanham. Então, no sábado, resolvi apresentar algumas músicas para meu amigo André daqui do Porto e ficamos vibrando com as letras e melodias. E se eu disser que no dia seguinte, o André foi resolver umas coisas no centro e encontrou com os caras dos Los Hermanos em plena estação São Bento???? Pois foi. Logo depois me ligou naquela animação, dizendo que os caras avisaram pessoalmente pra ele que iam tocar no Teatro Sá da Bandeira, nessa próxima sexta feira (24), junto com os Toranja, outra banda portuguesa. Disseram que era num teatro pornô, fazendo aquela palhaçada, porque na verdade o teatro Sá da Bandeira, durante a semana, passa filmes pornôs....Acabei de comprar o ingresso e estou numa animação para vê-los tocar. Pena que eles não curtam arquitetura, pois seria a única maneira de eu encontrá-los no meio da rua meio que por acaso, já que passo o dia nessa faculdade....